Caríssimos amigos,
Sejam muito bem-vindos a esta intempestiva edição extra e não-periódica do Diário de Bordo da Elis.
Como “navegar é preciso e viver não é preciso”, vim navegar mais uma vez em terras portuguesas. Fernando Pessoa é que tinha razão: quem é que precisa de precisão para viver? Um ano depois, estou eu aqui, novamente na Lusitânia, curtindo longas férias de julho e não podia deixar de compartilhar as novas experiências com vocês. Faço desta uma edição especial do meu querido diário de bordo, companheiro inseparável de outros tempos e que nunca mais será abandonado em definitivo, pois descobri que viajar é viver e não vivo mais sem viajar! Quem viaja vive de maneira imprecisa e audaciosa. Aprendi com os portugueses que a bússola indica a direção, mas quem conduz é o coração!
Língua
Ao voltar à terra que me abrigou por quase um ano, é claro que o contato com o idioma foi a primeira grande sensação. Que saudades de ser uma rapariga, de dizer “santinho” quando alguém espirra, de pedir “se faz favor” ao invés de “por favor” e de tomar o “pequeno almoço” para o desjejum. Que saudade deste povo sério da língua enrolada, mas do coração de ouro. Que saudade de ouvir músicas dos xutos e pontapés, de falar “tas a ver?”, “desculpe lá”, “o pá”. Que saudades de ouvir todas aquelas histórias do passado e de lembrar o quanto esta gente valente se orgulha de suas conquistas, de suas vitórias e de sua memória. Em poucas horas já estava totalmente habituada novamente ao sotaque português, cujos segredos da pronúncia acordo ortográfico nenhum irá mudar.
Revisitas
Lisboa continua linda. Foi lindo rever a cidade! As margens do rio Tejo com suas belezas, a Baixa (parte histórica da cidade) com a sua tradição e a Praça Marquês de Pombal com a sua imponência. Também tinha esquecido como a região da Expo (construções modernas) é bonita.
Para matar a saudade como deve ser, peguei mais uma vez o elevador de Santa Justa, um elevador público centenário que fica no centro histórico e que permite uma visão geral de Lisboa absolutamente inesquecível.
Fiz questão de ir a Arroios, o bairro (aqui é frequesia) cheio de imigrantes que me acolheu e que era uma verdadeira festa de chineses, indianos, africanos, brasileiros e árabes.
Nos arredores de Lisboa também não podia deixar de rever lugares lindos e queridos. Fui a Cascais e Sintra, duas cidadezinhas encantadoras!
Voltei também a São Martinho do Porto, onde vivi dias deliciosos de praia com a minha querida amiga Liliana.
Não podia deixar de passar por Fátima e Leiria, para visitar a família do meu amigo João Marques, que sempre me acolheu como irmã mais velha.
Momentos
Algumas cenas da viagem foram inesquecíveis. Passei um dia na praia da Ericeira, que eu não conhecia e comi a mariscada portuguesa, com vários frutos do mar que eu nunca tinha experimentado: percebes, navalheiras, sapateiras e as deliciosas ameijoas. O por do sol foi na praia, sentada em um delicioso puff muito VIP e tomando caipirinha com os amigos portugueses. Nesta noite ainda formos a um rodízio de carne brasileiro em outro lugarejo chamado Ribamar e eu me senti no Brasil.
Fui a um dos dias do festival Optimus Alive e foi incrível. Teve show do Thirty Seconds to Mars e dos Chemical Brothers. O evento foi numa praia com uma super estrutura e eu curti muuuito!
Voltei ao Bairro Alto, o reduto da boemia portuguesa e me diverti tomando sagres e superbock, as deliciosas cervejas portuguesas. Revi o meu amigo cavaquinista brasileiro Arnaldo e me lembrei das noites de Pandeiro na Toca do Cachorrão. Voltar àquele bar teve um gostinho especial.
Conheci um lugar delicioso chamado Sesimbra. É uma vila muito elegante, do outro lado do Tejo, com uma praia lindíssima. Fui recebida em uma casa de frente pro mar e durante alguns dias me senti no paraíso.
Em São Martinho do Porto houve um momento único. A minha amiga Liliana tinha umas bikes e passamos um dia inteiro passeando pela cidade, que é muito plana e agradável. Que sensação de liberdade. Eu queria congelar aquele momento!
Um ultimo momento único foi na discoteca Look, em Viana do Castelo. De repente tocou a música “A Casinha” dos Xutos e Pontapés e como era uma noite “remember” todo mundo cantou e pulou muito. Fiz um vídeo que ficou demais! Minha música portuguesa predileta e eu ali, cantando com a malta, como se fosse portuguesa!
O norte!
A grande novidade desta nova temporada em Portugal foi o passeio pelo norte do país. Que povo acolhedor, que paisagens lindas, que mar maravilhoso! Fui até um ponto de fronteira entre Portugal e Espanha (La Guardia) e fiquei extasiada com o que vi.
Para chegar à casa da minha amiga Anita passei pelo Porto, que eu já conhecia e me lembrei o quanto aquilo era bonito. Todavia, quando desci, bem mais ao norte, em Viana do Castelo, que é a cidade dela, fiquei deslumbrada. Trata-se de uma cidade com uma arquitetura belíssima, toda a infra-estrutura necessária, um litoral encantador e apesar de tudo isto, um ar de interior apaixonante. Fiquei fã. A família da Anita me recebeu como filha e participei de um almoço com a família toda reunida que foi fantástico.
Tive a oportunidade de conhecer mais duas cidades ainda mais ao norte de Portugal: Caminha e Cerveira. Lindas! Ambas terminam no rio Minho, que divide Portugal e Espanha. É só olhar para o rio e logo se vê o solo espanhol. O Minho deságua no mar e forma uma paisagem encantadora. Na altura de cerveira, há uma ilhota em forma de coração que se chama Ilha dos Amores. Um amor!
Ainda conheci Braga e Guimarães, duas cidades importantes no norte de Portugal. Braga me impressionou pela imponência das construções, todas históricas e pela grandiosidade e suntuosidade das igrejas. A cidade é universitária, mas tem um ar religioso. Descobri que vem de lá um licor tradicional no norte, mas de nome pouco simpático: licor de merda! Acreditem, é esse mesmo o nome e é tradição tomar a bebida com os amigos no natal (risos).
Já Guimarães foi onde nasceu Portugal. É tudo mais antigo e rústico. Tem um castelo fantástico, que remonta ao século VIII. Andei pelas muralhas e fiquei pensando quanta história deve ter sido ali vivida.
O povo do norte também é muito especial. São simpáticos e recebem a todos muito bem. São muito mais expansivos que os lisboetas. Têm um sotaque diferente também. Há algumas palavras e expressões que só se falam no norte (por exemplo, carago, que é sinônimo de caramba..rsrs). Eles também comem muito bem. Tem pratos deliciosos e as mesas são sempre muito fartas. Não há cerimônias e eu me esbaldei de comer.
Doutoramento
Voltar à faculdade foi um prazer. Confesso que não estudei muito mas fiz um curso de Verão sobre Direito de Autor promovido pela Associação Portuguesa de Direito Intelectual, da qual agora faço parte. Foi ótimo. Só senti foi muita falta da Fernanda e do Bernardo, os amigos de todas as horas com os quais estava sempre trocando impressões nos corredores, salas de aula e principalmente nas cantinas.
Depois de acertar os próximos passos do doutorado, tive um encontro com o meu orientador, Prof. José Oliveira Ascensão, para tratar do projeto da tese. Ele sempre muito lúcido, muito coerente e muito experiente, me deu ótimas idéias e me propôs reflexões muito pertinentes. Só por este momento, já tinha valido a pena a viagem!
Escaladas
Não escalei tanto quanto eu queria em Portugal, mas houve ótimos dias na rocha. Fui algumas vezes a Monsanto, um parque muito verde, dentro de Lisboa, que tem um muro artificial excelente.
Também voltei a escalar beira-mar, na Guia, em Cascais, com uma paisagem lindíssima e aquele barulhinho do mar batendo nas pedras.
Por fim, como não podia deixar de ser, voltei ao Reguengo do Fetal, em Fátima. Aquele lugar é mágico e único. Exala paz e tem mais ou menos 120 vias de escalada. Eu e meu amigo João Marques passamos um dia memorável escalando por lá.
Aproveitei para mandar vir da Espanha uns equipamentos para escalada móvel e quero agora novos desafios no Brasil.
Gran Finale
Para fechar com chave de ouro esta nova temporada em Portugal, eu tinha que conhecer pelo menos mais um país. Para minha sorte, tenho um amigo português que se dispôs a me apresentar os encantos de Viena, capital da Áustria e também de Budapeste, na Hungria. Ainda devemos dar um pulo em Bratislava, na Eslováquia e este gran finale vai ocorrer neste próximo e ultimo final de semana em que fico por aqui. To feliz e cheia de expectativas.
Para concluir este diário de bordo, gostaria de agradecer em especial aos meus queridos amigos portugueses, que passo a citar nominalmente, e também aos amigos que eles me apresentaram. Sem esta grande família portuguesa nada faria sentido. Obrigado Anabela, Lita, Rui, Ana Mega, Alex, Anita, Rosa, Zé, Liliana, Bruno, Sara, João Marques, Fernanda, Augusto, Margarida, Diogo, Joana Frade, Lia, Joana Alves, Carlos, Miguel, Ivo, Rafael, Anete, Arnaldo e Joaquim, meus amigos queridos que fizeram do meu verão português um período inesquecível e que fazem de Portugal a minha segunda casa!
Viva a imprecisão da vida e a precisão do mar! Viva Fernando Pessoa! Viva os laços afetivos entre Brasil e Portugal! Viva a amizade e o amor, que movem não só montanhas, mas também oceanos.
Beijos e até muito breve!
Elisboeta
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Elisângela Menezes
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