AS VENTURAS E DESVENTURAS DE UMA MINEIRINHA NAS TERRAS DE CABRAL

Sejam vem-vindos! Mi casa, su casa.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Edição 6 - 15/12/09

Queridos amigos,

Sejam muito bem-vindos ao Diário de Bordo da Elis: aquele e-mail que tem recheado as vossas caixas de mensagem com as baboseiras culturais aqui da terra de Cabral.

Universidade
Por falar em Cabral, essa semana eu fiquei orgulhosa de ser mineira e triste com a minha lamentável ignorância acerca de nossos personagens históricos. É que durante uma aula de direito privado, o professor falou a respeito de um livro escrito por um jurista brasileiro, um tal de Tomaz Antônio Gonzaga, sobre Direito Natural. O professor perguntou se alguém o conhecia e os quatro alunos presentes disseram que não (inclusive eu)...Gente, eu juro que me lembrei do inconfidente mineiro, mas nunca, nunca mesmo poderia pensar que o homem era jurista. Uai, onde será que ele arrumou tempo pra escrever livro sobre Direito??? Bem, o fato é que na seqüência o professor disse assim: “Esse autor participou de um tipo de conspiração...”. Daí eu dei um grito de exclamação: “inconfidência mineira!!!!!”...Só eu que conhecia o inconfidente....Ufa, minha alma mineira sentiu-se aliviada: liberdade, ainda que tardia!!!!
No dia 09 de dezembro eu e Fernanda fomos ao jantar de natal da faculdade. Dominado por mestrandos brasileiros o jantar teve momentos um tanto constrangedores, pela falta de costume com a cultura portuguesa. Imaginem que num dado momento, um coral executou uma música de natal alentejana (os baianos daqui, lembram?) e convidou-nos a dançar, todos de braços dados. Além da música ser tão lenta quanto exigia a sua origem, era muito melancólica e na configuração das mesas eu ainda fiquei de braço dado com o professor Ascensão, meu ídolo e mestre dos direitos autorais, ambos balançando os ombrinhos para a direita e para a esquerda, totalmente descoordenados, numa situação constrangedora de intimidade inexistente, a ritmo de tartaruga. Gente, a música parecia uma eternidade...

Língua
Aqui tem uma interjeição chamada “pá” que é multiuso. Parece com o “bah”, dos gaúchos...os portugas encaixam o tal do “pá” no meio das frases na maior naturalidade. Poderiam facilmente construir a seguinte narrativa: “tava a atravessar a rua, percebes? Ia distante e, pá, passava um carro, ê pá, que susto, ê pá, tão loucos os motoristas cá”
Há alguns dias me foram atribuídos adjetivos interessantes: na faculdade me disseram que eu estava “cavada”, só porque minha blusa tinha manga curtas. Pelo mesmo motivo, também me disseram que eu não devia estar tão “descapotável”, para não constipar...rsrsrs....Me senti uma mercedes Benz...aliás descobri que carros também podem ser descapotáveis, assim como as pessoas. Roupa ou capota, não importa: É tudo uma questão de ter ou não um capote pra cobrir!
Algumas palavras aqui tem a pronúncia muito estranha: excepcional aqui se fala “essechional”, descer é “decher”, crescer é “crecher”
Xícaras aqui são chávenas, então imaginem a seguinte frase (linguagem oral): “eu dechi a rua a tomar uma chávena essechional de chá”...”Xanto” Deus!!!...é tudo chiado....chamem a Xuxa!!!

Cozinha
Eu e Fernanda fizemos um jantar mineiro para as amigas portuguesas do pai dela aqui em casa. O cardápio foi lingüiça frita acebolada de entrada, e como prato principal feijão tropeiro, arroz e costelinha de porco. Como sobremesa servimos doce de leite e goiabada com queijo português (infelizmente). Embora a gente tenha se virado com ingredientes diferentes dos nossos, teve bão. Dois incidentes marcaram esse momento gastronômico histórico: um deles foi o torresmo pronto que compramos, que ao ser aquecido virou pura gordura saturada e foi pro lixo e o outro foi o pirex que estourou dentro do forno, obrigando a Fernanda a cozinhar a costelinha ao invés de assar, isso depois que ela cortou dois dedos nos cacos de vidro. Bem, cozinhar à brasileira aqui é um ato que requer coragem...rsrsrs
Pessoas, o vinho aqui é tão popular que se vende em caixinhas longa vida de 200 ml para consumo individual. Então você vai ao supermercado e além dos todinhos e sucos de caixinha, inclui na sua compra saches de vinho para os momentos de solidão acoólica.

Diversão
Eu e Fê fomos ao cinema assistir um filme chamado “atividade paranormal”. O trailler dizia que era o filme mais horripilante dos últimos tempos...Era tão bom que eu perdi o interesse depois dos 15 primeiros minutos e a Fernanda, absolutamente entediada, dormiu em vários trechos. Foi a primeira vez que eu vi alguém dormir num filme de terror na telona....kkkkkk..Se estiver passando aí no Brasil, não se dêem o trabalho: não vale o bilhete.
Toquei pandeiro de novo no bairro alto domingo passado e dessa vez cantei a pérola das pérolas: Conto de areia, da Clara Nunes. Tô realizada como artista, uauuuuuuuu....KKKK...Bem, antes de ter a minha pegada na calçada da fama, há que se registrar que todas as apresentações de gala acontecem num boteco chamado “bar do cachorro grande”. O nome, super elegante, não se deve à braveza do dono mas sim ao hot dog bem recheado (e com molho!) que eles servem lá, o que aqui em Lisboa é muito raro...kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Clima
Acho que hoje foi o dia mais frio do ano aqui. Ás sete da manhã os termômetros marcaram zero grau. Durante todo o dia a temperatura ficou em torno dos 4, 5 graus no máximo. Todo mundo de gorro, chapéu, luvas, 4 blusas, 2 calças, etc...seria perfeito se tivesse como proteger melhor o rosto: as bochechas ficam doendo de frio e o nariz fica tão gelado que parece q vai trincar e cair no chão. E a água potável da torneira? Desce doendo na garganta de tão gelada....Tô com medo só de pensar no clima que vou pegar na Alemanha na próxima semana. Aliás, os pais da Imke (minha amiga alemã) estiveram aqui em Lisboa e eu os conheci. São muito simpáticos e reforçaram o convite. Disseram pra eu levar todos os agasalhos que tiver e ofereceram os casacos de neve deles. Segundo eles, o clima deve ficar em torno dos 5 ou 6 graus abaixo de zero. Nossinhora, já tô branca igual cera e agora também vou ficar gelada igual pingüim.

Pesadas
O palavrão mais falado aqui é o “foda-se”. Desculpem baixar o nível para entrar nesse pormenor, mas é que o uso do termo aqui é interessante. Na verdade não é um “foda-se” simples, nem na pronúncia nem na sua aplicabilidade. Se aí no Brasil representa um mero “que se dane”, aqui é sinônimo de merda, pqp, porra ou qualquer outro termo xulo usado nas mais diferentes situações. Assim, pra tudo o que acontece de mal a eles, a reclamação é sempre: “fôudas”. Com esse “u” aí no meio...kkkkkkk... Então, se cortam o dedo, dizem isso, se chove muito, dizem isso, se o trânsito está ruim, dizem isso, se ficam admirados com alguma coisa, também dizem isso. Que pobreza de palavrão! Fôudas!

Bom, dessa maneira super nobre vou terminando esta edição, em clima de natal, com muitas saudades de todos aí. Outro dia me chamaram de bazuca lá no bairro alto. Nunca tive tanto orgulho de ser, não porque a gente seja grande coisa por aqui, mas porque a gente tem muita coisa boa por aí, que faz toda a diferença quando se está longe. Fiquem com Deus e não se esqueçam de aproveitar o Natal para pensar no próximo, naquele irmão que bate à porta pra pedir o alimento e, por favor, também em mim e na Fernanda, que embora não estejamos tão próximas fisicamente, continuamos bem pertinho em pensamento e em sentimento.

Beijos a todos.

Elis