AS VENTURAS E DESVENTURAS DE UMA MINEIRINHA NAS TERRAS DE CABRAL

Sejam vem-vindos! Mi casa, su casa.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Edição 27 - 15/06/2010

Queridos amigos,

Sejam muito bem-vindos ao Diário de Bordo da Elis. Inicia-se oficialmente hoje o meu último mês em Portugal. É a reta final de uma jornada de aprendizado, estudo, viagens, novas experiências e de muito crescimento e muita diversão. Nada melhor do que poder compartilhar com cada um de vocês um pouquinho do meu eu e das histórias que tenho vivido por cá diariamente.

Jantar com orientador
Enfim tive o meu primeiro encontro fora de sala de aula com o meu maravilhoso, poderoso e magnânimo orientador. Como eu havia dito, eu e o Bernardo formos convidados pelo professor José Oliveira Ascensão para um jantar, no qual tivemos a oportunidade de falar um pouco mais sobre nossas trajetórias acadêmicas, sobre os planos profissionais e sobre os respectivos projetos de tese. O professor estava muito bem disposto e a despeito da sua avançada idade (quase 80), dirige muito bem e é fantasticamente lúcido, inteligente e experiente. Fomos a um restaurante chamado Cataplana, que serve pratos portugueses produzidos numa panela de cobre especial que leva o mesmo nome, típica da região do Algarve. A noite correu de forma muito agradável e o professor me deu várias e preciosas dicas para a tese. Privilégio único, pelo qual agradeço todos os dias.

Caracóis e caracoletas
Bem, nem tudo nessa vida são flores. Já tinha tempo que os meus amigos portugueses vinham me chamando para cumprir uma tradição por aqui: aproveitar o sol do verão para comer caracóis numa esplanada, num fim de tarde, tomando uma imperial gelada. Confuso? Bem, vamos por partes. Esplanada são uns botecos com mesas nas ruas, muito agradáveis e sempre cheios no verão. Imperial é chopp e aqui normalmente são das marcas Sagres ou Superbock. Agora vem a parte chata: os caracóis, que são caramujos, aqueles que aparecem nos nossos jardins e que são uma verdadeira praga, além de muito moles e nojentos. Pois é, gente, o povo aqui come isso e adora!! Faz parte do hábito deles. Pedem uma porção de caracóis e vem um prato cheio de caramujos cozidos num caldo ralo. Tem que tirar os bichos da concha (que é dura...pelo menos isso) com um palito e comer inteiro. Agora vem a pergunta: como é que isso pode ser prazeroso? Eu sei lá. É claro que experimentei, porque tava na guerra e não podia ser desertora, mas confesso que mastigar uma gosma com antenas e uma cauda verde não foi nada agradável. E mal sabia eu que o pior ainda estava por vir: as caracoletas. Bem, essas, por sua vez, são caracóis super-crescidos, tipo lesmas mesmo. Todos me disseram que elas eram mais saborosas, porque eram maiores e tinha mais gosto. Foi a pior experiência gastronômica da minha vida! Eu fechei os olhos, pus uma caracoleta na boca e simplesmente mastiguei aquilo por dolorosos minutos consecutivos, sem que o bicho se dissolvesse e no final resolvi, a muito custo, engolir inteiro aquele monte de gosma e cartilagem. Me disseram que as caracoletas são as primas (pobres..kkkk) do escargot francês. Inacreditável que alguém pague uma fortuna pra comer esses bichos sem gosto, sem charme, feios e de textura duvidosa. Ao final de tudo, uma amiga tuga ainda me disse que os bichos são colhidos mesmo no jardim e que ela várias vezes já comeu caracóis que colhia na horta da casa dela. Como se vê, os bichos não são criados em cativeiro, nem nada! São caramujos e lesmas disfarçados de tira-gostos! Eca, que nojo!

Festa dos Santos de Lisboa
É muito interessante a tradição portuguesa das festas juninas. Eles também fazer barraquinhas nos bairros e são até muito mais ligados nessa tradição do que nós. Devemos mesmo ter herdado isso deles. Há concursos entre as diversas regionais, para ver quem tem a festa mais animada, e os moradores se empenham em produzir comidas típicas e tornar o evento o mais comunitário possível. A grande festa da cidade, no entanto, é a festa de Santo Antônio, que é o padroeiro de Lisboa. Na véspera do dia 13 de junho, dia do Santo Casamenteiro, a cidade fica toda em festa. E aí to falando de festa mesmo! Um verdadeiro carnaval fora de época. O evento ocorreu no último sábado e eu fiquei impressionada com a animação. As ruas da cidade estavam lotadas e cada bairro, principalmente os mais tradicionais, estava cheio de barraquinhas com bebidas e comidas, além de muita música, que variava de estilo conforme o lugar e o momento. Tocou desde Ivete Sangalo e música eletrônica até a música tradicional popular portuguesa, que é o pimba. O interessante é que a festa dos santos de Lisboa, como é conhecida, tem a tradição de oferecer sardinhas assadas e bifanas. Uma sardinha custava um euro e era servida inteira, assada, dentro de um pão de sal. Era preciso comer com as mãos, abrindo o peixe, tirando os espinhos e partindo pequenos pedaços de pão pra acompanhar. Claro que isso fazia uma bagunça danada, mas eu particularmente achei delicioso e comi logo duas sardinhas e duas bifanas, sendo essas últimas uns sanduíches de pão com bife de boi. Fui pra festa com os amigos portugueses e fizemos uma via sacra, passando por diversos locais históricos para ver como era a festa: começamos pela rua da Bica e de lá fomos à Catedral da Sé. Da Igreja subimos para o bairro da Alfama e terminamos a noite nas muralhas do Castelo de São Jorge. Fui pra casa às seis da manhã e ainda tinha muita gente na rua! Incrível! Nunca vi nada parecido no Brasil. Isso é que é festa junina! Perto disso, o que temos no Brasil não dá nem pro cheiro...rsrsrsrsrsrsrs. (seguem anexas três fotos, só para ilustrar).

Copa do Mundo
Hoje Portugal e Brasil fazem seus primeiros jogos pela copa. Tenho sentido muita falta daquela animação que se vê pelas ruas do Brasil às vésperas do mundial. Por aqui é claro que a TV fala sobre isso e transmite os jogos. Os bares também têm telões para passar as partidas, mas sinceramente não é a mesma coisa. Não tem gente com camisas na rua, não tem bandeirinhas pra todo lado e nem pessoas apostando e falando disso o tempo todo na rua. Descobri que isso é tipicamente brasileiro e está intrinsecamente ligado à nossa paixão por futebol e ao nosso favoritismo de todos os tempos. De qualquer forma, hoje vou ver ambos os jogos na rua e terei a idéia de como os portugueses se comportam durante as transmissões. Claro que vou com a camisa do Brasil que ganhei da minha primona Érika na hora de embarcar pra cá. Se aqui eles não usam camisas da seleção deles, não posso fazer nada!! Hihihi...O pior ai ser o jogo do dia 25 de junho, que é entre Brasil e Portugal. Esse vai ser uma saia-justa, mas sinceramente, acho que Portugal não tem chance contra o Brasil! Aqui o fuso-horário para a África do Sul é de apenas uma hora e o horário dos jogos é muito bom. Acontecem sempre ao meio dia e meia, três da tarde e sete e meia da noite. Tenho acompanhado muitos jogos e assim como todos os brasileiros estou preocupada com a Argentina de Maradona e com a Espanha, que vem cheia de autoconfiança. To tentando me animar para o mundial, mas acompanhá-lo daqui definitivamente não tem a mesma graça. Por favor me incluam nas correntes, bolões, comemorações, apitaços e churrascadas que vão rolar por aí, porque em pensamento estarei presente, enviando aquela vibração positiva para vencermos a copa!

No mais, exatamente hoje perdemos mais um membro da trupe de amigos brasucas de Lisboa. O Bernardo, meu querido amigo doutorando da Bahia, voltou hoje pro Brasil. Para ele já terminou esse primeiro ciclo, assim como o meu termina no próximo mês. A amizade fica, mas vamos sentir falta dos estudos em conjunto e das farras. Agora só restamos eu e Fernanda e logo logo só restará ela. Em cada lugar que estive fiz um contato e dei início a uma amizade que eu sei que ainda vai gerar muitos intercâmbios. Isso é maravilhoso! É chegado o momento de dizer, com propriedade, aquela famosa frase de despedida: te encontro pelo mundo!!!

Boa sorte ao Bernardo na sua volta à terrinha e também ao Otávio, Fernanda, Imke, Anabela e Liliana, meus amigos de fé e irmãos camaradas. Pessoas queridas que eu encontrei pelo mundo e que agora fazem parte do meu mundo para sempre!

E no Brasil, abraços e beijos para a minha amada família e para os meus amigos de toda uma vida.
São as manifestações sinceras de um pequenino coração verde-amarelo com muitas saudades de casa.

Elis