AS VENTURAS E DESVENTURAS DE UMA MINEIRINHA NAS TERRAS DE CABRAL

Sejam vem-vindos! Mi casa, su casa.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Edição 28 - 23/06/2010

Estimados amigos,

Sejam muito bem-vindos ao Diário de Bordo da Elis. Mais uma vez escrevo a vocês, para contar coisas sobre esse último mês em Portugal. Assim como aí no Brasil, o quente por aqui é a copa do mundo, que acabou por ocupar essa edição. É que viver o mundial à portuguesa tem sido uma experiência à parte!

Torcida Portuguesa
Os portugueses são mesmo esquisitos no que se refere a futebol. Não usam a camisa da seleção deles (camisolas, como eles dizem...kkk) nem na copa! O que eles costumam usar são cachecóis com o nome do país e as cores da bandeira. Muito europeu né? Pena que a copa por aqui é no verão e com isso deve dar uma suadeira danada torcer pra Portugal! Hehehehe
O jeito tuga de torcer é bastante comedido. Eles não pintam a cara, não gritam, não xingam o juiz e nem cantam o hino com orgulho. Simplesmente assistem em casa ou vão aos bares civilizadamente tecer comentários sobre a partida. Já ouvi dizer por aqui que o Benfica causa mais paixão do que a seleção portuguesa e eu acredito, porque vi mais alegria e festa nas ruas quando o Benfica ganhou a liga portuguesa do que agora, que Portugal praticamente já se classificou para a próxima fase.
No jogo em que Portugal meteu 7 a 0 na Coréia do Norte pensei que eles iam enfim desencantar...achei que iam fazer muita festa e acreditar mais na seleção deles...bem, é claro que eles ficaram felizes mas não teve buzinaço nas ruas e nem festa nas praças....ô meu Deus, se fosse o Brasil a golear era carnaval até o próximo jogo!
Nem as vuvuzelas os tugas perdoaram...tá certo que o barulho é muito chato, mas daí a colocar filtro de áudio nas transmissões televisivas para amenizar o som das vuvuzelas já foi um excesso de intolerância! Os tugas anunciam isso aqui em todos os jogos, como uma forma de melhorar a qualidade da transmissão e é claro, manter a paz e a ordem que imperam durante a copa por aqui! kkkkkkkkkkkkkk

Rivalidades
Achei interessante a rivalidade que existe entre Portugal e Espanha. É parecida com a que se vê entre Brasil e Argentina, mas faltam as provocações, o sangue latino e o bom humor. De qualquer forma, os tugas admitem que preferiam não enfrentar os espanhóis na próxima fase, porque sabem que a Espanha, apesar das zebras, tem um bom time e não querem perder para os rivais históricos, que incomodam desde a época das navegações e da união ibérica, quando o povo lusitano ficou sob o comando da coroa espanhola.
Por falar nisso, os argentinos estão mesmo preocupantes...tem jogado bem e o Maradona cresce em auto-estima a cada jogo. Espero que Deus não nos reserve um confronto com eles na final, porque a tensão seria enorme. Perder pra Argentina é sempre péssimo, mas numa copa do mundo seria mesmo trágico...
Bem, por aqui ninguém gosta muito dos franceses, que tem fama de serem esnobes e a volta deles mais cedo pra casa foi vista com bons olhos. Já os africanos decepcionaram, principalmente a África do Sul, dona da casa, que teve o mérito de despachar a França, mas não conseguiu se classificar. Espero que Ghana represente a força da África na próxima fase!

Jogos do Brasil
Desde o primeiro jogo veio a dúvida: onde e como torcer pra nossa seleção em terras lusitanas? Claro que eu sabia da existência de comunidades brasileiras por aqui, mas sabia também que seríamos sufocados pelo desânimo português. Assim, fiquei pensando onde é que eu me sentiria à vontade para torcer em paz e, é claro, à brasileira, com direito a camisa, gritos, xingamentos, tensão e muita comemoração.
A solução foi uma esplanada sugerida pelos estudantes brasileiros do mestrado. Temos marcado de nos encontrar por lá e conjuntamente com alguns compatriotas já conseguimos fazer uma torcidinha de talvez umas 50 pessoas, no máximo. Somos poucos, mas somos barulhentos..rsrsrs. O local tem um ótimo telão, com mesas na calçada e muito espaço no chão, onde acabamos por nos sentar para assistir aos jogos, num pequeno esforço para nos sentirmos mais unidos e à vontade.
Cada vez que nós nos levantamos para a execução do hino nacional brasileiro e cantamos com vontade, os portugueses olham para nós com cara de espanto, demonstrando uma total incompreensão do ato, do sentimento e da paixão que nos move.
O Brasil não tem feito nenhum futebol show (pelo contrário!), mas por aqui enquanto estivermos ganhando vamos continuar a torcer e a comemorar, imaginando como deve estar sendo a festa aí no Brasil. Buááá....que pena que não estou aí.
No jogo contra a Costa do Marfim, eu fiquei impressionada. A torcida deles lá na esplanada era maior do que a nossa. Como Portugal colonizou vários países da África, há aqui muita imigração africana e parece que nos jogos das equipes daquele continente todos se unem para torcer. Achei bonito isso. Aliás, os africanos são muito mais animados que os portugueses e com isso o jogo ficou muito mais interessante de ver no telão, porque tinha aquela rivalidade saudável entre as duas pequenas torcidas ali representadas.

Sonho Africano
Não sei se todos sabem, mas a África do Sul fala onze idiomas diferentes e por causa disso a maioria da população não sabe cantar o hino nacional deles. Fiquei comovida com a iniciativa de uma entidade não governamental chamada “Sonho Africano”, que está ensinando a população a cantar o hino. Um ato aparentemente simples, mas com um objetivo muito maior, no sentido de contribuir para o processo de unificação pós apartheid (regime de segregação racial) e mudar o sentimento das pessoas em relação ao país delas.
Essa copa é mesmo muito especial, na medida em que nos aproxima das nossas raízes africanas e nos permite o contato com uma cultura que de alguma forma também é parte de nós. O próprio hino oficial da copa do mundo reflete essa relevância social e cultural da escolha da África para sediar os jogos. Trata-se de uma musica escrita por um africano do povo, com uma letra e melodia simplesmente lindas e muito significativas. Fiquei arrepiada quando ouvi pela primeira vez. Se alguém aí ainda não teve esse prazer, segue o link do vídeo legendado, para facilitar a compreensão. Vale a pena. http://www.youtube.com/watch?v=Ayw3nI8uIHs

Bem, hoje vou terminar a edição com uma homenagem a José Saramago. O escritor português mais famoso da atualidade morreu na semana passada aos 87 anos em casa, na ilha espanhola de Lanzarote. Uma perda lamentável para todos os países de língua portuguesa, pois foi o único de nosso idioma a ganhar o Nobel da literatura. A morte de Saramago foi muito lamentada por aqui e houve luto oficial de dois dias. Mais um fato histórico que eu presencio e registro, como eterna jornalista que sou. Que a literatura de Saramago resista ao tempo e às suas transformações de toda ordem, para continuar representando com distinção a nossa língua diante do mundo.

Beijos,

Elis

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